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no início das Maratonas no Rio
eu, que corria corridas de longa distância
na faculdade, resolvi treinar.
Eu
mesmo elaborei o treinamento e até
estava me saindo bem. Fiz treinamentos
cada vez mais longos, nunca ultrapassando
os 28Km que eu só fazia eventualmente.
A um
mês da maratona fiz 28 km em 2hs
e acreditei que faria um excelente tempo
na Maratona. Estava tentando menos de
3hs.
Na
época eu tinha 20 e poucos anos,
muita vitalidade e pouca experiência.
O trajeto
no Rio, ainda nos anos 80 saia do Leme,
indo até o Aterro, Perimetral
até o Silo Tupi, voltando até
o Leblon e depois terminando no Leme.
Me
sentindo muito bem treinado e acostumado
a ganhar provas na faculdade (normalmente
de 5000 e 10000 metros) achei que eu
seria um campeão.
A prova
naquela época era muito bem organizada,
o povo todo na rua, era uma delícia.
Até
aquele dia a maior prova que eu tinha
corrido tinha sido uma meia maratona
e o meu maior treino tinha sido de 28
KM.
Larguei
muito bem e fui cumprindo meu objetivo
de correr a Maratona em 3 horas - Eu
queria correr a 4:30 por KM. Achei que
eu estava muito bem e comecei a me animar.
Dentre os amadores eu era um dos primeiros.
Comecei a apertar o ritmo e acreditar
que eu poderia fazer em 2:45min. Comecei
a correr no ritmo extraordinário
para mim de 4min/km. Eu estava voando.
Ia terminar em uma Olimpíada.
Lá
íamos nós: Urca, Aterro
de Botafogo, Aterro do Flamengo, uma
maravilha. 10Km e tudo bem. 45 minutos,
beleza. Só apertar mais um pouco
e faço em menos de 3 horas.
Ia
bebendo água e o povo aplaudindo.
Minha brincadeira era ultrapassar os
outros. Colocava um alvo, alguém
correndo lá na frente, e ia apertando
até ultrapassa-lo, narrando mentalmente
como se estivesse em uma Olimpíada.
Cheguei na perimetral e tudo bem, 15km.
E pensava, se eu não apertar
no inicio por mais que corra bem no
final, não vou fazer um tempo
bom. Minha preocupação
era fazer um bom tempo.
Eu
tinha um bom final nas provas de fundo
da faculdade e acreditava nele. Mas,
na faculdade era 10, máximo de
15km...
Cheguei
no Silo Tupi, dei a volta, olhei para
frente e me deu aquela sensação
estranha. Até o Leblon agora.
E o Leblon nem era o final. Senti pela
primeira vez o que era uma Maratona.
Eu estava lá no fim do mundo
em cima da Perimetral, quase na Av Brasil,
e a próxima curva era lá
longe no Leblon. E o Leblon e muito
longe da perimetral. E o Leblon não
era nem o final. Mas que corrida longa
essa...
Não
estava cansado, mas psicologicamente
me abati, quando eu dei a volta e olhei
para frente, vendo Botafogo e o Morro
da Urca e imaginando onde era o Leblon.
Caiu a ficha que aquilo não era
uma corrida da faculdade. Aquilo era
algo diferente. Algo que eu nunca havia
feito e provavelmente não estava
preparado. Ao menos psicologicamente.
De
qualquer forma tentei manter o ritmo.
Só que me conformei com os 4:30
achando que 4:00/km era demais. O Monstro
da Maratona começava a me devorar...
E ai,
no meio da Praia de Botafogo, com mais
de 25km corridos veio a dor. Quem já
correu uma Maratona sabe o que e a dor.
Dói. Simplesmente dói.
Começa a doer tudo. O calção
dói, a camisa dói, a meia
dói, o pé dói,
a cabeça dói, o tórax
dói, a barriga dói, a
alma dói. Tudo dói e tudo
pesa. A única coisa que você
quer na vida e parar de correr. você
não quer diminuir, andar, chorar,
você só quer parar de correr.
E o que e pior, começa a aparecer
um monte de corredores parados...
Foi
aí que eu comecei a me arrastar.
O ritmo acabou, nada de 4:30, nem 5:30,
nem 6 min por quilômetro. Eu simplesmente
comecei a me arrastar. Estava derrotado
pela Maratona. Logo eu, o grande corredor
da faculdade que ia terminar a Maratona
em menos de 3 hs. E aí pensei,
droga se eu treinei 28Km em 2 hs, porque
hoje eu vou demorar mais de 2 horas
para terminar 28Km? Para que tanto treinamento.
Bom
cheguei ao túnel que leva a Copacabana
mas infelizmente era um túnel,
um espação e depois outro
túnel. E aquilo demorava uma
eternidade, eu só queria chegar
em Copacabana. não sei porque
mas eu acreditava que se chegasse em
Copacabana conseguiria chegar até
o final.
Me
arrastando, fingindo que estava correndo
finalmente cheguei em Copacabana. Quando
terminou a Princesa Isabel e entrei
na Praia de Copacabana outra coisa terrível:
A imagem dos corredores vindo em outra
direção se aproximando
do final enquanto eu teria de correr
mais 7 quilômetros ate o Leblon,
dar meia volta e voltar para onde eu
estava...
Todo
o percurso ate o Leblon era feito com
o pessoal do outro lado bem na sua frente
e isso era mortal. Não pela disputa
mas por saber que eles estão
quase acabando. Aqui não importa
mais a posição, o tempo,
só importa acabar, parar de correr
e não desistir.
Neste
momento aconteceu uma coisa estranha.
Eu não decidi e não lembrava
como, mas de repente eu percebi que
estava andando. Não estava mais
correndo. Andava e bem devagar. E o
que e pior, batia papo com outro corredor
que eu não tinha idéia
como tinha aparecido e do que falávamos.
E lá fui eu andando Copacabana
abaixo em direção a Ipanema.
Tentei correr algumas vezes mas logo
andava de novo. O mesmo com meu novo
amigo. Um apoiava o outro, não
sei porque a gente estava correndo junto.
Ate que desisti de correr. Era uma coisa
impossível. Andar não
era tão ruim, era suportável,
apesar que a Dor não tinha me
abandonado. Tudo doía...
Andando,
com algumas tentativas de correr cheguei
no Leblon. Dei a volta, o povo incentivava
e ai era a reta final. 7km ate o fim.
já tínhamos corrido (ou
andado) 35km! não deixou de ser
um alento. Ao menos não ia mais
ficar vendo pessoas bem na minha frente.
Eu via agora, por incrível que
pareça um monte de corredores
que ainda estava atrás de mim,
por mais que eu achasse que era o ultimo...
Esta
injeção de animo me fez
voltar a correr. Corri uns 500 metros
e de repente, igual quando eu passei
a andar, estava sentado. Me vi sentado
em Ipanema, meio groge, meio perdido.
Alguém me deu água, outro
me deu um chocolate e alguém
me levantou e me incentivou a continuar
correndo do meu lado. Era conhecido
ou um rosto na multidão? Não
sei, mas com aquilo eu fui embora. Não
sei quanto tempo fiquei sentado. Já
estava meio perdido e já estava
escuro (A Maratona do Rio naquela época
era corrida a tarde).
Me
arrastando, não sei se correndo
ou andando, cheguei em Copacabana e
vi que passei da marca de 39Km. A esta
altura acho que eu andava mais rápido
do que corria, o que só acontece
quando estamos completamente acabados.
De qualquer forma eu tentava correr.
Só me movia a vontade de terminar.
Nunca deixei nada pela metade, não
ia deixar de terminar esta prova...
Passei
os 40Km e já dava para ver a
linha de chegada lá na frente.
Isso me fez correr um pouco mais rápido,
mas por apenas uns metros. Voltei logo
a me arrastar. Meu amigo corredor tinha
se perdido, não sei se ficou
para trás ou para frente. Em
volta de mim todos se pareciam comigo.
Um bando de corredores acabados se arrastando,
andando, sentando, etc. E por incrível
que pareça, ainda tinha muita
gente indo na direção
do Leblon.
41
Km e agora só faltava 1Km e eu
sabia que chegaria ao final. Faltando
500 metros ou algo assim voltei a correr
e nos últimos 100 metros nao
sei como consegui dar um pique para
ao menos chegar bonito...
No
relógio estava meu tempo: 5 horas
e 15 minutos!
Duas
horas e quinze minutos a mais do que
o meu plano!
Descobri
da forma mais difícil que uma
Maratona não tem nada a ver com
uma prova de 10Km ou ate mesmo 15Km.
Voltei
para casa no carro dos meus pais ouvindo
sobre as pessoas que chegavam na minha
frente enquanto eles me esperavam e
nao agüentavam mais: Velhos, crianças,
mulheres, deficientes físicos,
garçons, enfim, todas as pessoas
do mundo haviam chegado na minha frente
segundo os meus pais...
No
ímpeto da juventude, tinha forca
e resistência como nunca mais
tive. Poderia ter ido mais longe se
tivesse sido treinado adequadamente.
Meu tempo foi terrível, meus
pais fazendo troça de mim, estava
mais cansado do que já estive
em toda minha vida...
Mas
eu tinha uma camisa escrito: Eu Completei
a Maratona e, apesar de tudo foi uma
vitória. Não me preparei
direito. Corri demais no início.
Deveria ter tentado 4 horas e não
3 horas. Me cansei, andei, me arrastei,
sentei, quase morri, mas terminei. Não
sei como terminei, nas condições
que terminei. Mas terminei, fui até
o final e esta não deixou de
ser uma vitória...
Um
abraço |